Pedras no coração e nas mãos

O tema acerca das intolerâncias já é, em primeira vista, bem discutido. Mas, por que então continuamos a discuti-lo? Por que essa denominada ‘intolerância’ ainda teima em existir?

Para uma discussão mais aprofundada, precisamos levantar uma reflexão geral quanto às relações humanas. Na Grécia Antiga, por exemplo, os gregos reservaram um lugar que eles alcunharam pelo nome de “ágora”, como campo próprio do diálogo. A ‘ágora’ se tratava da praça pública; é nela que o cidadão grego convive com os demais para comprar coisas nas feiras, onde ocorrem as discussões políticas e os tribunais populares: é, portanto, o espaço da cidadania.

Ainda tratando-se da filosofia, um filósofo existencialista do século XX bastante conhecido, Sartre, em uma de suas obras declarou: “O inferno são os outros.” Na perspectiva sartriana, não há relação humana que não carregue em si mesma um germe de tensão. “O inferno são os outros”, para Sartre, significa justamente isso: porque o outro é livre, não podemos controlar completamente o que ele pensa, o que ele nos diz, o limite que ele impõe à nossa liberdade (o que frequentemente gera conflito); mas, ao mesmo tempo (daí vem a tensão), preciso dele, de seu olhar (ainda que, muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos), para me conhecer e poder agir no mundo, pois apenas por nossas ações (sobretudo as que interferem positivamente na vida dos outros), e no nosso contato intersubjetivo autêntico (que ocorre quando encaro o outro como um ser igualmente, livre, e não como um simples objeto), que podemos superar nossa situação e dar um sentido legítimo à nossa existência.

A Bíblia nos traz um relato no livro do Gênesis sobre um fratricídio. Caim mata raivosamente seu irmão de sangue Abel. A narrativa expõe que a oferta oferecida a Deus por Abel melhor agradou do que a de Caim. Abre-se uma brecha na interpretação desse episódio sobre os sentimentos de inveja, ciúmes, mas também aponta para o não suportar mais a presença do outro. Em suma: eliminação. Todo aquele que não me agrada em certo sentido, eu o elimino de variadas maneiras, inclusive através de ofensas.

O tema escolhido para esse texto, como foi acenado no início, é de uma atualidade ímpar. Em todas as configurações de coletividade (família, trabalho, ambientes públicos, plataformas digitais…) presencia-se diariamente extremos de intolerância e desrespeito. Esclareço que aqui não faço uso de uma abordagem do politicamente correto e/ou uma atitude simplesmente vitimista das coisas. Quero assim problematizar o porquê de hoje mais do que nunca a simples vivência do coletivo nos incomoda tanto.

O campo da psicologia nos adverte que muito daquilo que julgamos dos outros ou atribuímos ao outro é, na verdade, nosso. Isso numa perspectiva psicológica chama-se de projeção. Para Freud a projeção é um mecanismo de defesa psicológico em que

determinada pessoa “projeta” seus próprios pensamentos, motivações, desejos e sentimentos indesejáveis numa ou mais pessoas. Já para alguns psicanalistas e psicólogos, trata-se de um processo muito comum que todas as pessoas utilizam em certa medida. Peter G. define projeção como “a operação de expulsar os sentimentos ou desejos individuais considerados totalmente inaceitáveis, ou muito vergonhosos, obscenos e perigosos, atribuindo-lhes a outra pessoa.”

Obviamente há ressalvas em aplicar essas leituras de especialistas diretamente nas pessoas intolerantes sem uma análise mais bem fundamentada. Porém uma coisa é certa: tais pessoas que assim agem, com muita probabilidade sofrem internamente de algum tipo de dificuldade na ordem do afetivo/emocional.

Alegoricamente as pedras em nossas mãos, muitas vezes, apenas explicitam as pedras que guardamos em nosso coração. Isso sem falar nas inúmeras doenças somáticas que já estão sendo cientificamente comprovadas em ligação com o nosso emocional. Viver bem implica em desejar que de alguma maneira todos os que estão ao meu redor também vivam. Por isso, nesse plaino desafiador das relações humanas, aprendamos que o outro me é muito caro, e mais ainda, que ele me completa em uma busca inquietante de sentido.